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20:19

Entalhador de gente

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Existe uma aura quase mitológica em torno de Jun Matsui. O pernambucano voltou do Japão em 2007 e conduz um estúdio no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Matsui é praticamente um alfaiate do neo-maori. Conversamos então com Andre Ferezini, diretor do documentário que leva o nome do tatuador.

Influenciado pelo traço oriental e conceitos polinésios de adornos anatômicos, ele veste pessoas em sessões artesanais e custosas, sempre com a cor preta, que fizeram seu nome em Tóquio e o estabeleceram como autor requisitado de entalhes na cútis aqui no Brasil.

Haja vista a trajetória do artista, adolescente skatista saído dos anos 1980 e enviado como decasségui para trabalhar na linha de montagem da Toyota, era de se supor que acumulasse uma bolada para quem sabe retornar ao país de origem anos mais tarde.

 

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Ponto fora da curva, Matsui largou a automobilística, se meteu num bar do bairro Gaspanic e lá entrou em contato com a boemia local para se tornar referência nipônica de tatuagem ao assumir o ofício no início dos anos 1990.

Geralmente, quando Matsui sai na mídia nacional o que é abordado se restringe ao estilo que desenvolveu, o caminho que percorreu até se consolidar e curiosidades sobre a vida no Japão ou situações em que decorou o corpo de membros da Yakuza. Mas não é exatamente sobre isso o curta metragem sobre o artesão.

 

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Com 18 minutos, registrado ao longo de cinco anos principalmente no estúdio e no retiro de Matsui, o filme é sobre o amadurecimento de um homem cujos cabelos vão ficando grisalhos sem apelar para folclores ou sensacionalismo. Intercalando narrações do próprio tatuador com imagens de pessoas/canvas que receberam seus trabalhos, a vida do protagonista é apresentada ainda com atmosfera misteriosa preservada.

A estreia da produção foi no início de junho deste ano em Londres. Mês que vem o filme será exibido em sessão para convidados no Cine Joia, SP, para seguir viagem à Nova York, São Francisco e Japão. No começo de outubro deve estar disponível na internet para todos.

 

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Com fama de difícil, seletivo e ciente do próprio talento, Matsui opera no esquema do boca a boca e não entrou no ciclo de produção em larga escala do mercado de tatuagem. Se assim o fizesse, seria mais fácil fazer carreira onde estava na Toyota. Segundo o diretor do filme, é complexo entender como alguém exercendo a profissão num método muito distinto das atuais clínicas possa se manter no Brasil.

Ferezini foi cliente de Matsui, em 2010. Quando se aproximou do artesão para a primeira consulta levou uma carta justificando e explicando o momento pelo qual passava para dar embasamento ao desenho. Observou o espaço de trabalho do anfitrião enquanto conversavam e ficou morrendo de curiosidade para conhecer os outros cômodos, pois a casa inteira lhe parecia tratada como artesanato.

 

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Atuando como diretor de publicidade atualmente, Ferezini sempre gostou de tatuagens. Lembra quando ia ao fliperamas enfumaçados, para desgosto da mãe, e observava as tatuagens verdes de dragão de alguns motoboys e achava aquilo instigante. Vestígios de pertencimento a um grupo. Algo do tipo.

Como se classifica como voyer, os documentários são instrumentos de imersão em experiências (em geral a de subculturas) que o fisgam. Entender melhor quem era Matsui era caminhar pelos demais cômodos, no entanto, a aproximação foi em etapas vagarosas.

 

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Isto é na verdade reflexo do método do artesão. Extremamente diferente do Miami Ink e da visão mais voltada para o design ou da estética acumulativa de estampas mais recente no nosso país. “Jun não é um copista como boa parte dos tatuadores no Brasil. Está muito mais ligado ao lado ancestral e das origens da tatuagem porque estudou técnicas usadas como reforços étnicos”, analisa.

O filme é um recorte da experiência de Ferezini com Matsui. No começo, diante da carta, Matsui declinou a feitura da tatuagem do diretor e ofereceu até o retorno do dinheiro. Com o tempo, Ferezini entendeu que a recusa vinha do afobamento e ansiedade que apresentava. Um mal que acomete muita gente disposta a ter agulhas injetando tinta na pele.

 

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“Parece que quanto mais se retrai, mais a aura de Matsui aumenta, porém isto acaba atraindo as pessoas ideais para serem seus clientes porque é preciso entender o formato paralelo de negócio ao qual ele se dedica.” Ferezini insistiu e saiu com o braço tatuado (imagem abaixo). Insistiu mais um pouco e saiu com um documentário.

 

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